O objectivo central da parte final do documento é fundamentar a necessidade, possibilidade e oportunidade de uma mudança: passar da crítica da organização linear, compartimentada e fragmentária durante a formação de 1º ciclo dos estudos superiores em comunicação, à acção de desenhar um currículo/plano de estudos com uma abordagem transdisciplinar do comunicacional, aproveitando as evoluções das ciências da comunicação. Este campo do saber é ainda muito jovem, mas apresenta já marcas de alguma maturidade e uma maior definição. Terminou o fascínio tecnicista - as "novas tecnologias" já não são "novas" - e chegou a hora de pensar com serenidade este campo a partir de uma perspectiva pedagógica. Recuperando uma parte dos nós conceptuais abordados nos documentos anteriores da Rede ICOD, podemos indicar alguns eixos desse movimento.
Implicações pedagógicas da comunicação como fenómeno complexo Numa perspectiva pedagógica, o pensamento complexo está centrado em aprender a aprender (E. Morin). Os analistas dos new media consideram que a Internet gerou importantes alterações na forma como circula o conhecimento. Teria acontecido uma espécie de "descentralização" e "deslocalização", de tal forma que os saberes começam a sair dos lugares até agora socialmente legitimados para a aprendizagem. Actualmente existe uma multiplicidade de saberes sem lugar próprio ou em espaços tradicionalmente não aceites para a produção de conhecimento. O que diferencia a universidade de outras instituições é a procura permanente de melhores formas de tornar mais explícitas as condicionantes extra-científicas, por desconstruí-las e por controlar a sua influência.
O maior desafio que se coloca às cátedras universitárias é assumir que manejar este ou aquele corpo teórico já não é suficiente: é preciso aprender a incorporar formas de negociar a informação que chega a cada um para continuar a aprender o resto da vida. Isto implica muitas coisas, mas talvez como maior tarefa, implica aprender a incorporar a teoria de forma não reprodutiva e a prática de forma não instrumental. Também o ensino da teoria deveria estar mais orientado para o saber-fazer, o que não é possível com planos de estudo puramente discursivos que são dominantes em muitas universidades.
Implicações pedagógicas do enfoque transdisciplinar na comunicação: A transdisciplinaridade não deve ser traduzida em termos de diversidade de matérias - o que asseguraria o enfoque transdiciplinar - mas como uma perspectiva transversal ao disciplinar. A tarefa consiste, pois, em desenvolver um pensamento transdisciplinar. Uma perspectiva interessante seria estudar um mesmo objecto a partir de várias disciplinas para mostrar o que elas têm para dizer sobre o objecto, com a finalidade de demonstrar as vantagens de uma "transdisciplinaridade metodológica" e, simultaneamente, para contrastar os resultados com a especificidade comunicacional, entendida como um olhar científico transversal.
Implicação pedagógica da comunicação como fenómeno fluido: O digital produz espaços interactivos cujos modos de apropriação escapam, ou podem escapar, às estratégias para as quais o espaço digital foi aberto e cujos resultados podem ser diferentes - até mesmo opostos - aos resultados previstos.
A implicação de pensar a comunicação como situação de interacção em permanente mutação inclui aprender a pensar o digital a partir das ferramentas de análise estratégica: sobreposição teoria/realidade, sistema concreto de acção, zonas de autonomia, fontes de poderes, etc.
No que concerne às possíveis modalidades de ensino-aprendizagem e investigação universitária da comunicação (não apenas digital), enumeram-se de seguida um conjunto de propostas:
Plano de estudos organizados por problemas de investigação e não por temas e disciplina Desenhar novos planos de estudos para compreender a multiplicidade, a heterogeneidade do comunicacional em detrimento do ensino repetitivo de lógicas invariáveis. Também no campo da investigação em comunicação é imperativo proceder a uma reestruturação. É necessário um paradigma novo, que permita abandonar os programas de investigação regidos exclusivamente pela lógica disciplinar e adoptar programas centrados em problemas reais e suas forças motrizes.
Reconversão do docente universitário A comunicação digital requer e, simultaneamente, facilita uma reconversão do docente do ensino superior no que diz respeito aos modelos de ensino-aprendizagem. As experiências de weblogs no desenvolvimento de disciplinas universitárias deram bons resultados porque o ambiente digital participativo exige que o docente explicite uma estratégia pedagógica para cada disciplina.
Inclusão do emocional É necessário incluir as emoções porque elas dispõem o nosso corpo no espaço relacional e no tempo. As emoções não dependem apenas do como está feito o mundo, pela simples razão de que, simultaneamente, elas fazem esse mesmo mundo. O conhecimento humano, como auto-organização da própria experiência, não é apenas cognitivo, mas também emocional.
Avaliar processos e não apenas resultados Variar as tradições de avaliação, assumindo o ensino-aprendizagem como um processo contínuo, fluido, que não chega nunca a um "resultado definitivo" porque está em permanente mutação. Desde uma perspectiva histórica, os "resultados" são uma simples valorização de um momento deste processo em transformação.
Viver os limites Como uma forma de transformar também as metodologias de ensino-aprendizagem nos estudos superiores, assinala-se a importância de que a prática docente e de investigação permaneça sempre processo de mudança, procurando as fronteiras, dando lugar ao novo, ao híbrido enquanto reapropriação crítica e valorativa. Um caminho que deu bons resultados em várias universidades é, por exemplo, o desenho de estratégias de comunicação para matérias teórico/práticas, trabalhar por problemas mais do que por temas para o desenvolvimento de matérias teóricas, ou trabalhar por projectos em matérias práticas.