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5. Algumas reflexões finais olhando para o futuro

O objectivo central da parte final do documento é fundamentar a necessidade, possibilidade e oportunidade de uma mudança: passar da crítica da organização linear, compartimentada e fragmentária durante a formação de 1º ciclo dos estudos superiores em comunicação, à acção de desenhar um currículo/plano de estudos com uma abordagem transdisciplinar do comunicacional, aproveitando as evoluções das ciências da comunicação. Este campo do saber é ainda muito jovem, mas apresenta já marcas de alguma maturidade e uma maior definição. Terminou o fascínio tecnicista - as "novas tecnologias" já não são "novas" - e chegou a hora de pensar com serenidade este campo a partir de uma perspectiva pedagógica. Recuperando uma parte dos nós conceptuais abordados nos documentos anteriores da Rede ICOD, podemos indicar alguns eixos desse movimento.

  • Implicações pedagógicas da comunicação como fenómeno complexo
    Numa perspectiva pedagógica, o pensamento complexo está centrado em aprender a aprender (E. Morin). Os analistas dos new media consideram que a Internet gerou importantes alterações na forma como circula o conhecimento. Teria acontecido uma espécie de "descentralização" e "deslocalização", de tal forma que os saberes começam a sair dos lugares até agora socialmente legitimados para a aprendizagem. Actualmente existe uma multiplicidade de saberes sem lugar próprio ou em espaços tradicionalmente não aceites para a produção de conhecimento. O que diferencia a universidade de outras instituições é a procura permanente de melhores formas de tornar mais explícitas as condicionantes extra-científicas, por desconstruí-las e por controlar a sua influência.
    O maior desafio que se coloca às cátedras universitárias é assumir que manejar este ou aquele corpo teórico já não é suficiente: é preciso aprender a incorporar formas de negociar a informação que chega a cada um para continuar a aprender o resto da vida. Isto implica muitas coisas, mas talvez como maior tarefa, implica aprender a incorporar a teoria de forma não reprodutiva e a prática de forma não instrumental. Também o ensino da teoria deveria estar mais orientado para o saber-fazer, o que não é possível com planos de estudo puramente discursivos que são dominantes em muitas universidades.

  • Implicações pedagógicas do enfoque transdisciplinar na comunicação:
    A transdisciplinaridade não deve ser traduzida em termos de diversidade de matérias - o que asseguraria o enfoque transdiciplinar - mas como uma perspectiva transversal ao disciplinar. A tarefa consiste, pois, em desenvolver um pensamento transdisciplinar. Uma perspectiva interessante seria estudar um mesmo objecto a partir de várias disciplinas para mostrar o que elas têm para dizer sobre o objecto, com a finalidade de demonstrar as vantagens de uma "transdisciplinaridade metodológica" e, simultaneamente, para contrastar os resultados com a especificidade comunicacional, entendida como um olhar científico transversal.

  • Implicação pedagógica da comunicação como fenómeno fluido:
    O digital produz espaços interactivos cujos modos de apropriação escapam, ou podem escapar, às estratégias para as quais o espaço digital foi aberto e cujos resultados podem ser diferentes - até mesmo opostos - aos resultados previstos.
    A implicação de pensar a comunicação como situação de interacção em permanente mutação inclui aprender a pensar o digital a partir das ferramentas de análise estratégica: sobreposição teoria/realidade, sistema concreto de acção, zonas de autonomia, fontes de poderes, etc.
No que concerne às possíveis modalidades de ensino-aprendizagem e investigação universitária da comunicação (não apenas digital), enumeram-se de seguida um conjunto de propostas:
  • Plano de estudos organizados por problemas de investigação e não por temas e disciplina
    Desenhar novos planos de estudos para compreender a multiplicidade, a heterogeneidade do comunicacional em detrimento do ensino repetitivo de lógicas invariáveis. Também no campo da investigação em comunicação é imperativo proceder a uma reestruturação. É necessário um paradigma novo, que permita abandonar os programas de investigação regidos exclusivamente pela lógica disciplinar e adoptar programas centrados em problemas reais e suas forças motrizes.

  • Reconversão do docente universitário
    A comunicação digital requer e, simultaneamente, facilita uma reconversão do docente do ensino superior no que diz respeito aos modelos de ensino-aprendizagem. As experiências de weblogs no desenvolvimento de disciplinas universitárias deram bons resultados porque o ambiente digital participativo exige que o docente explicite uma estratégia pedagógica para cada disciplina.

  • Inclusão do emocional
    É necessário incluir as emoções porque elas dispõem o nosso corpo no espaço relacional e no tempo. As emoções não dependem apenas do como está feito o mundo, pela simples razão de que, simultaneamente, elas fazem esse mesmo mundo. O conhecimento humano, como auto-organização da própria experiência, não é apenas cognitivo, mas também emocional.

  • Avaliar processos e não apenas resultados
    Variar as tradições de avaliação, assumindo o ensino-aprendizagem como um processo contínuo, fluido, que não chega nunca a um "resultado definitivo" porque está em permanente mutação. Desde uma perspectiva histórica, os "resultados" são uma simples valorização de um momento deste processo em transformação.

  • Viver os limites
    Como uma forma de transformar também as metodologias de ensino-aprendizagem nos estudos superiores, assinala-se a importância de que a prática docente e de investigação permaneça sempre processo de mudança, procurando as fronteiras, dando lugar ao novo, ao híbrido enquanto reapropriação crítica e valorativa. Um caminho que deu bons resultados em várias universidades é, por exemplo, o desenho de estratégias de comunicação para matérias teórico/práticas, trabalhar por problemas mais do que por temas para o desenvolvimento de matérias teóricas, ou trabalhar por projectos em matérias práticas.

 

 

 

 

 

 

 

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