O ensino da comunicação digital: experiências e propostas
Introdução: entre a tecnologia e a didáctica
Durante o terceiro encontro da Rede ICOD - dedicado à didáctica da comunicação digital - foram apresentadas diferentes experiências de ensino no campo das novas formas de comunicação, desde disciplinas com conteúdos teóricos até ateliers de produção multimédia. Nessas experiências foi possível identificar uma grande variedade de metodologias de trabalho mais ou menos participadas e com diferentes graus de utilização de infra-estruturas tecnológicas. Para posterior debate, neste documento resumem-se os principais eixos definidos nos relatórios então apresentados.
Antes de entrar na descrição das novas experiências educativas é necessário reflectir sobre a relação entre a tecnologia e a pedagogia. A utilização de tecnologias - neste caso, digitais - não garante por sim própria uma transformação do processo educativo que aponte no sentido da horizontalidade da relação docente-aluno, nem o incremento da motivação e da participação.
Por outro lado, no âmbito da Rede ICOD não nos interessa aprofundar a análise dos sistemas de "ensino à distância", mas sim estudar as práticas mistas onde o trabalho em sala de aula se combina com a utilização de tecnologias digitais que podem potenciar a criação colectiva de conhecimento e a comunicação do grupo.
Neste contexto, a introdução de tecnologias digitais nos processos de ensino-aprendizagem (como os textos online, o correio electrónico, os weblogs ou os fóruns, por exemplo) podem reproduzir um modelo pedagógico tradicional, mas também permitem ajudar a gerar novas práticas. Neste segundo caso, o factor tecnológico apresenta-se como um elemento de ruptura em relação às práticas pedagógicas tradicionais. Nalgumas situações - como a rede de weblogs Dialógica criada por docentes da UNR (Argentina) - os alunos empenharam-se de tal forma na produção de conteúdos e na criação de comunidades virtuais que acabaram por deixar os docentes em segundo plano. Para além disso, as tecnologias permitem integrar no processo de ensino-aprendizagem os estudantes com capacidades especiais.
No que concerne à introdução de novas práticas pedagógicas nas instituições de formação, há um dado comum a todos os relatórios apresentados pelas universidades que fazem parte da Rede ICOD: a difusão de práticas renovadoras é um processo complexo e desigual que responde a diferentes causas e condicionantes. Entre os factores que influenciam nesta variada configuração das práticas pedagógicas institucionais, podemos mencionar:
Tradição didáctica de cada instituição: há realidades universitárias mais permeáveis às transformações pedagógicas e mais abertas à reflexão sobre a didáctica.
Perfil das universidades: existem instituições que promovem uma formação mais adequada às necessidades de mercado (proximidade com o mundo profissional, aquisição de conhecimentos práticos, etc) e outras com uma perspectiva mais académica (investigação, alto conteúdo teórico das disciplinas, etc.).
Experiências individuais precedentes: as vivências educativas de professores e alunos variam de universidade para universidade e, muitas vezes, dentro da própria instituição. Alguns docentes propiciam novas práticas enquanto outros se limitam a reproduzir um modelo de ensino unidireccional no qual foram formados.
Há outros factores que parecem não ser determinantes na hora de pôr em prática os modelos pedagógicos:
Quantidade de alunos: o número de estudantes não parece afectar a aplicação de práticas pedagógicas renovadoras. Estas novas experiências encontram-se tanto nas universidades de grandes dimensões como em instituições mais pequenas. Nas experiências analisadas de ensino do digital, constatou-se que nas disciplinas com mais de 30 estudantes é habitual dividir a turma em grupos mais pequenos para as práticas laboratoriais. Em média, os grupos ficam com 15 a 20 estudantes.
Tecnologia: o recurso a tecnologias digitais ou audiovisuais de apoio ao ensino também não parece ser um factor determinante para a colocação em prática de modelos pedagógicos inovadores.