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2.4 Modelos de incorporação dos conteúdos digitais

Apesar da situação dos estudos de comunicação ser variada e assumir diferentes formas, nesta secção trataremos de identificar alguns modelos de incorporação dos conteúdos digitais dentro dos cursos. O objectivo é construir um primeiro mapa que nos permita identificar as várias maneiras que os estudos de comunicação têm para enfrentar o desafio digital.

  • Cursos tradicionais actualizados
    Trata-se de instituições com perfis de formação tradicional que começam a incluir na sua oferta educativa matérias (teóricas e/ou práticas) sobre temas digitais. De uma maneira geral, integram-se disciplinas nos primeiros ou últimos anos das licenciaturas com carácter optativo ou de escolha livre. O digital, nestes cursos, é um "extra" um complemento que frequentemente acaba isolado e desarticulado da proposta geral.
    Este é o caso de muitas universidades (sobretudo públicas) com grande quantidade alunos - por exemplo a Universidad Complutense de Madrid ou a Universidad de Buenos Aires. Trata-se de instituições com milhares de alunos e professores, limitadas quando chega a hora de renovar os seus planos de estudo e com grupos de investigação consolidados nas temáticas tradicionais dos estudos de comunicação.Muitas faculdades respondem de uma forma "acrítica" ao pedido de um mercado laboral que inclui entre as suas principais exigências o uso de computadores, quer a nível geral, quer como complemento ou instrumento de trabalho próprio da profissão. Acreditamos que essa tendência continua a ser a prática seguida por muitos estabelecimentos de educação média que agregaram a tecnologia informática com os olhos postos num complemento de formação educativa de cidadãos "alfabetizados tecnologicamente". Esta visão, como dizemos, não vai mais além do que considerar a tecnologia digital um instrumento na aula tal como anteriormente o tinha sido a incorporação de televisores, vídeos e em geral as velhas "novas tecnologias" de tipo analógico. Com efeito, o homem relaciona-se com os objectos e com os instrumentos do mundo e a educação é mais uma via para a sua inserção neste mundo tecnológico. Mas, a "requalificação" ou formação no uso de tecnologias da população estudantil destas casas de estudo poucas vezes têm em conta que a maioria das profissões requerem informação interdisciplinar, transdisciplinar e polivalente. Longe, então, de articular conhecimentos, a maioria das vezes estes aparecem por baixo de duas linhas divisórias bastante claras: a formação "teórica" básica, disciplinar (teorias da comunicação) e a formação "prática", instrumental da que a manipulação ou conhecimento de tecnologia digital é hoje o lugar comum a todas1.

  • Cursos Redesenhados
    Referimo-nos com este nome a instituições consolidadas no ensino da comunicação nas quais se redesenharam os planos de estudo e os conteúdos para incorporar a comunicação digital. Sem negar uma tradição formativa, nestes cursos o digital tende a introduzir-se de maneira transversal em todo o plano de estudos. Tanto as universidades públicas com as privadas podem representar-se com este modelo. Dentro das instituições que formam a Rede ICOD encontramos várias que respondem a este modelo de digitalização (Universidad Nacional de Rosario, Université de Lille 3, etc.). O maior ou menor grau de digitalização destes cursos depende de alguns dos factores analisados nas secções 2 e 3 deste capítulo.
    Esta perspectiva pensa no uso da tecnologia digital na educação como uma proposta integral que circula no currículo do plano de estudos e gera espaços articuladores, a partir dos quais se desenham vários instrumentos. O uso de weblogs educativos na UNR2 é um exemplo deste último caso, um elemento à volta do qual se estruturam os conteúdos e as temáticas das diversas áreas comunicacionais do curso. O uso de um formato pensado para funcionar na Internet é sem dúvida um grande potencial democratizador e uma participação comunicativa.
    Cabe também assinalar que o principal choque que podem sofrer estas tentativas é, como no caso anterior, a insuficiência de recursos económicos e/ou tecnológicos que permitam um desenvolvimento constante da formação académica dos estudantes. Apesar do acento neste caso estar posto no aprender a pensar - inclusivamente a "pensar digitalmente" - e não em aprender a utilizar determinado instrumento tecnológico.

  • Cursos novos com centralidade digital
    Estes cursos dão-se em instituições públicas ou privadas de criação nova onde os conteúdos digitais aparecem de uma maneira óbvia e transversal nos estudos de comunicação. Também neste caso várias universidades que fazem parte da Rede ICOD reconhecem-se neste modelo (Universitat de Vic, Universidade da Beira Interior, etc.). O grande desafio destas universidades é construir percursos formativos de comunicação digital que não desprezem a tradição dos estudos comunicacionais.
    É por causa deste grande desafio que estes cursos não devem nunca esquecer que a transmissão do conhecimento e da informação não assegura um conhecimento crítico e próprio, a criatividade ou as aptidões para resolver problemas emergentes. A comunicação, para além da elaboração do produto desenhado de acordo com os cânones esperados, é produção de sentido. É um encontro entre seres pensantes, críticos que põem em comum ideias, pensamentos e experiências. E estas só se podem adquirir no decurso do processo de aprendizagem e no contacto com as diferentes perspectivas disciplinares, inter e transdisciplinares que reflectem sobre a comunicação e os seus processos. Um comunicador de mentalidade flexível é justamente o contrário de um especialista em informática digital com quem as faculdades de comunicação devem estar muito certas de não competir.
    Também é indispensável ter em conta que a tecnologia não é neutral, mas que incorpora modos de vida e de pensamentos económicos, sociais, culturais e ecológicos. É por isso que não se deve cair na mistificação da tecnologia, mas considerar que um mundo tecnológico é um mundo de natureza sócio-cultural diversa, mutante e denso, cruzado e modificado pelas mudanças do mesmo tempo em que se desenvolvem os seus produtos e requerimentos comunicativos.


Para encerrar este capítulo dedicado à digitalização dos estudos de comunicação podemos insistir no carácter desequilibrado e assimétrico que adopta este processo. O desequilíbrio manifesta-se entre universidades: há instituições onde o digital se integrou "naturalmente" e de maneira veloz nos cursos de comunicação; noutras universidades este processo foi menos impetuoso. De todas as formas as universidades que participam na Rede ICOD reconhecem que se trata de um processo ainda em curso, aberto e onde ninguém se pode vangloriar de ter a última palavra.

No que diz respeito à assimetria podemos vincular este conceito à relação que se estabelece entre a Universidade e a sociedade (ou entre Universidade e mercado): existem realidades onde a universidade se manteve em sintonia com as transformações (e pressões) que emanam da sociedade e dos âmbitos profissionais (meios de comunicação. Agências de publicidade, organizações, etc.); noutros casos, esta relação foi bem mais ténue, preservando a universidade a sua própria autonomia e tempos quando chegou a altura de construir a sua oferta educativa.


1 Geralmente, sob o nome de "informática" - em todos os seus níveis - "tecnologias digitais", "linguagem digital" em todas as suas variantes - audiovisual costuma ser a mais comum - aparecem no currículo tratando de responder a um pedido fundamentalmente dos alunos que as consideram prioritárias para a formação. Isto na melhor das hipóteses produz alunos hábeis no manuseamento dos principais programas de computação - de desenho gráfico, por exemplo. Embora a qualidade da aprendizagem seja medida pela proporção aluno/computador e horas de utilização. Um método que pode dar resultados nalgumas universidades, mas que deixa bastante mal vistas outras, que contam com orçamentos escassos em relação à massa crítica de alunos que circulam pelas aulas. Este é o caso em geral das Universidades Públicas Latino Americanas que vêem degradada a proposta ao não poderem sustentá-la economicamente ao longo do tempo.

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A noção chave destas propostas é a de "estratégia de pensamento", ou seja, um plano explícito e articulado para desenvolver numa situação que implique um desafio intelectual. Neste processo a tecnologia é uma parte fundamental do mesmo, uma vez que pensar tecnologicamente implica a tomada de decisões precisas sobre o produto comunicacional que se está a desenvolver e o resultado final do mesmo. Embora estas estratégias não sejam só as que condicionam a tomada de decisões, como ocorre em determinados seminários ou matérias de produção que se encontram nos planos de estudo, geralmente nas disciplinas antes consideradas "práticas" ou de "prática profissional". Também são estratégias de tipo variado, aparecem sobretudo nos primeiros anos de estudo e são fundamentalmente de tipo cognitivo. Estas estratégias podem ser de compreensão e interpretação, de resolução de problemas, de pensamento criativo, etc. . e podem encontrar-se tanto em matérias de áreas caracterizadas desde o teórico-epistemológico como às mais próximas da produção de materiais e conteúdos.

 

 

 

 

 

 

 

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