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2.1. A digitalização: alguns casos

Nesta secção será feita uma revisão rápida à digitalização em algumas universidades representadas na Rede ICOD. Em Espanha - apesar do crescimento económico das últimas duas décadas - a difusão das tecnologias digitais de informação e comunicação foi limitada especialmente se a compararmos com os países anglo saxónicos ou nórdicos. Esta "digitalização a meias" da sociedade reflecte-se nas estruturas universitárias. Tal como assinala o relatório apresentado pela Universidade de Vic:

"(…) a presença geral de disciplinas dedicadas à análise dos processos de comunicação digital ou ao conhecimento dos instrumentos digitais de produção é mínima nas universidades espanholas. À excepção de algumas universidades (…) na grande maioria das instituições as disciplinas dedicadas à comunicação digital são quase inexistentes… são as licenciaturas mais novas as que foram criadas durante os anos 90, as que tendem a incorporar um maior número de conteúdos digitais:Universitat Pompeu Fabra (Barcelona), Universidad Europea de Madrid, Jaume I (Castelló de la Plana - Valência), Universidad de Navarra e Universitat de Vic".

As grandes universidades têm de lidar com estruturas muito pesadas, com departamentos por vezes anquilosados e pouco flexíveis no momento em que decidem incorporar novos conteúdos. É evidente que as universidades com menor números de estudantes (e de docentes) costumam ser mais flexíveis na adaptação dos seus estudos aos novos desafios profissionais que apresenta a comunicação digital. No caso específico da Universitat de Vic, os três cursos de comunicação possuem um DNA digital uma vez que, segundo os seus responsáveis, "não existe mais a comunicação não digital". Os estudos de jornalismo na Uvic- a única universidade do estado espanhol que oferece disciplinas obrigatórias como "Jornalismo digital", "Comunicação interactiva", "Fundamentos da Comunicação Digital" e "Infografia" - destinam-se a formar:

"(…) um jornalista multimédia capaz de se mover indistintamente em diferentes meios e linguagens. A ideia de que o jornalista não é um simples "escritor de notícias" mas sim um profissional da comunicação que manipula (cria, diferencia, recria, põe de lado, etc.) textos em suportes diversos é central na filosofia desta Licenciatura".

No caso da Licenciatura de Comunicação Audiovisual:

"(…) decidiu-se privilegiar a formação de um profissional de multimédia com um conhecimento operativo de todas as linguagens e meios. O objectivo é formar um comunicador caracterizado por um perfil dotado de flexibilidade, em sintonia com os processos de convergência mediática e novas rotinas profissionais"

Na Universidade da Beira Interior (Portugal), os programas de estudo sofreram duas modificações ao longo de treze anos.

"No primeiro relatório interno de avaliação é referido que estas remodelações não tiveram como objectivo responder à rápida evolução das técnicas e profissões ligadas, já que a função de um curso universitário não se pode resumir a uma corrida à especialização técnica e profissional".

A partir destas mudanças, o curso de licenciatura de "Comunicação Social" propõe entre as suas saídas profissionais figuras como a de "Realizador e Produtor Multimédia". Os conteúdos digitais foram introduzidos de forma intensiva pela reforma dos planos de estudo efectuada no curso 2002/03. A escolha do digital, tratando-se de uns estudos tão jovens, foi fundamental. O relatório da Universidade da Beira Interior conclui que:

"(…) a inserção das questões ligadas ao digital no curriculum é uma marca distintiva do curso de Ciências da Comunicação da Universidade da Beira Interior. As disciplinas ligadas ao jornalismo e ao audiovisual são as que abordam o tema com maior profundidade, em grande parte porque é nestas áreas que a investigação está mais desenvolvida".

A situação é diferente na Universidade de Lille 3: aí não existe uma formação específica na temática digital, mas esta problemática foi-se integrando de maneira progressiva dentro de um percurso formativo generalista mais voltado para a gestão dos processos de comunicação.

"As entrevistas realizadas com os principais responsáveis da área de comunicação de Lille 3 revelam uma posição, se não crítica, pelo menos reflexiva a respeito do lugar do digital nos programas de formação. Presente logo no início da década de 90, esta reflexão tornou-se mais forte ainda na fase "post revolução digital" … ela caracteriza-se por uma reintrodução da interrogação sobre os usos e as finalidades do digital nos dispositivos de comunicação… não houve em Lille 3 uma "revolução digital", mas sim uma integração progressiva do digital nos dispositivos pré-existentes … esta atitude crítica não deve ser percebida como conservadora ou tradicionalista. O laboratório de pesquisa GERICO de Lille 3, um dos maiores laboratórios de ciências da informação e comunicação de França (cerca de 40 pesquisadores) questiona a especificidade do digital".

No caso específico da UNPA, falar de digitalização pode ser errado: trata-se de um título de licenciatura em comunicação a ponto de começar, sem uma larga tradição de estudos às suas costas (com excepção do curso técnico sobre o qual se constrói a licenciatura). Por este motivo:

"A incorporação do digital admite-se como uma necessidade e é assinalada num dos relatórios de consultoria: "o acesso às novas tecnologias é uma condição de sobrevivência e de comunicação numa universidade dividida em quatro sedes" … "

Na UNIJUI -onde os cursos de comunicação já têm uma década de existência (foram criados em 1995)- o digital está presente desde a criação destes cursos:

"Na proposta inicial, a discussão acerca das tecnologias em comunicação tinha espaço no currículo com a disciplina de ‘Novas Tecnologias em Comunicação’. Em 2003, com a reformulação do projecto político-pedagógico, foi inserida a componente de ‘Tecnologias de Comunicação’ em substituição da componente anterior de ‘Novas Tecnologias de Comunicação’. A discussão das tecnologias em comunicação não é exclusiva na disciplina de ‘Tecnologias de Comunicação’, já que em vários momentos do curso é feita essa reflexão, bem como são experimentadas essas possibilidades".

A outra universidade brasileira que participa na Rede ICOD tem mais de dez anos de experiência no ensino, desenho e produção da comunicação digital. Desde a criação da revista on-line "Lugar Incomum" (a primeira publicação jornalística em linha no estado da Bahia), até à configuração do "Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line", a UFBA ocupou uma posição privilegiada no sector das tecnologias digitais da comunicação. Desta experiência derivaram uma série de "lições":

  • "O ensino do jornalismo nas redes é uma necessidade prioritária posta perante a consolidação desta nova forma de fazer jornalismo e supõe o desenvolvimento de metodologias específicas.
  • Na sociedade das redes mudam totalmente as funções dos estudantes e dos professores. Cada vez mais o estudante pode trabalhar de forma colectiva e autónoma com a tutoria do professor.
  • Mais que nunca, no caso das redes, quando tudo está por se fazer, a investigação deve estar por detrás dos projectos de ensino no jornalismo.
  • A base tecnológica que está por detrás do jornalismo nas redes põe em relevo a vocação para a investigação aplicada e a inovação tecnológica, até hoje quase inexistente nos cursos de jornalismo.
  • Os cursos de jornalismo e as pós-graduações em comunicação devem estreitar laços com agências de fomento à investigação, empresas de vocação tecnológica e organizações jornalísticas para o desenvolvimento de tecnologias e softwares".

O curso de comunicação da UNR foi incorporando progressivamente conteúdos digitais à medida que se iam produzindo as sucessivas modificações aos planos de estudos. Se na reforma de 1996 se incluiu uma Oficina de Comunicação Multimédia que começou a trabalhar nestes temas, a partir do novo plano implementado em 2001 outras disciplinas incorporam o digital:

" (…) A oficina da Comunicação Multimédia ainda sem lhe outorgar um tratamento específico, é o que talvez melhor reflecte a tarefa de avançar na perspectiva de incorporar o digital como mudança tecnológica e sócio-cultural, conservar o propósito de delimitar e construir a especificidade da comunicação e do comunicador e, ao mesmo tempo, em superar a dicotomia teórica e prática, na aprendizagem face a problemas e propostas e na possibilidade de construir conhecimento desde uma situação de mudança. A partir da vigência do plano 2001, no Ciclo Básico os espaços curriculares de estruturas mais abertas como "Comunicação Estratégica", "Comunicação Visual Gráfica" e "Comunicação Audiovisual", estão a incorporar o digital como constructos, modelos, artefactos ou resultados de análises".

Nestes dois últimos anos, a experiência no uso da tecnologia de weblogs dentro das disciplinas - inclusive em disciplinas cujos conteúdos não estão vinculados à problemática digital -colocou a UNR como uma das instituições mais activas dentro do programa argentino e latino-americano.

Como pudemos observar, a situação de cada universidade apresenta os seus próprios ritmos e particularidades. Nas duas próximas secções, analisaremos brevemente alguns dos factores que favorecem ou retardam a digitalização dos estudos universitários de comunicação.

 

 

 

 

 

 

 

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