Entendemos por "digitalização" a actualização dos planos de estudo para incorporar, tanto desde uma perspectiva teórico-analítica como prático-profissional, todos os aspectos vinculados às tecnologias digitais da informação e da comunicação. A chegada destas tecnologias - e o consequente impacto sobre o sector das comunicações e o imaginário social - incrementou ainda mais o interesse pelos cursos de comunicação em todos os países independentemente da presença efectiva dessas tecnologias nas respectivas sociedades. Se como acabámos de ver, os estudos universitários de comunicação só por si atraíam os jovens, o novo clima digital em que vivemos consolida esta tendência.
O primeiro campo laboral onde se evidenciaram os efeitos das tecnologias digitais - em meados dos anos 80 - foi o mundo da comunicação gráfica. Com o correr dos anos 90, os novos instrumentos e lógicas de produção digital foram passando do mundo da conformidade ao universo audiovisual. Entretanto, iam tomando forma - num processo ainda inacabado - os novos formatos da comunicação multimédia e interactiva. A forma de fazer, a maneira de produzir a comunicação, mudou radicalmente nos últimos 20 anos. Isto implica grandes desafios às instituições encarregadas de formar os futuros comunicadores. Por outras palavras: ao crescente êxito dos estudos de comunicação soma-se a remodelação do campo profissional devida à erupção das tecnologias digitais.
A digitalização também trouxe consigo um problema colateral pelo menos numa primeira fase do seu desenvolvimento: a desprofissionalização da comunicação. A difusão das tecnologias digitais tornou possível que qualquer utilizador tivesse acesso a potentes instrumentos destinados ao desenho, a manipulação de imagens fixas ou em movimento e a criação de páginas web e produtos interactivos. Evidentemente, esta leitura instrumental e puramente técnica está a ser pouco a pouco substituída por uma ideia mais completa que implica a "comunicação digital". Por outro lado, a complexidade dos instrumentos de produção digital (software) gerou a necessidade de formar profissionais de alto nível nos cursos de comunicação: uma coisa é criar uma "página web pessoal" e outra muito diferente é desenhar, produzir e gerir um projecto de comunicação digital multimédia.
A entrada do digital nos estudos tradicionais de comunicação acarretou novas tensões - existentes, como já vimos desde há muito tempo - entre conhecimentos técnicos e conhecimentos teóricos. O relatório de Lille 3 defende que
"(…) a nossa maior dificuldade em comunicação digital é a articulação dos cursos teóricos de estratégia com os cursos técnicos. Estamos à procura de soluções pedagógicas sobre este assunto. O problema decorre por parte da especialização dos professores, e remete finalmente para a história da comunicação em Lille 3".
Este assunto ainda continua por resolver. Um debate similar desenvolve-se dentro das várias empresas de comunicação: um "jornalista digital"…deve ter conhecimentos de programação? Ou basta que seja simplesmente um "bom jornalista"? Até que ponto não convém à instituição que este possua conhecimentos informáticos?
Outro aspecto a ter em conta é a adopção acrítica de conteúdos digitais dentro dos estudos universitários de comunicação. Toda a tecnologia vem com um imaginário debaixo do braço e promete, pelo menos no momento da sua aparição, solucionar todos os problemas da humanidade. As tecnologias digitais não ficaram alheias a este processo de utopização e de construção de um imaginário digital. A universidade, evidentemente, não deveria fomentar este imaginário mas sim contribuir para o desmistificar e para o analisar criticamente. Neste sentido, a incorporação relativamente lenta de conteúdos digitais dentro dos estudos de comunicação teve um efeito positivo: o atraso universitário serviu para "filtrar" a entrada de uma visão acrítica e conotada ideologicamente do digital. Por outras palavras: quando o digital começa a entrar nos estudos oficiais de comunicação, a especulação financeira - mas também ideológica -já tinha explodido.