A digitalização dos estudos
Universitários de comunicação:
Um mapa da situação
Neste documento traça-se um panorama dos estudos universitários de Comunicação na Europa e na América Latina, com um enfoque especial na tensão existente entre os sistemas tradicionais de formação e os actuais processos de "digitalização". Em segundo lugar analisa-se em detalhe esse processo de "digitalização dos estudos de Comunicação", um processo que se apresenta desequilibrado e assimétrico nas diferentes realidades universitárias e nacionais. Finalmente, descreve-se a presença de conteúdos digitais nos cursos de Comunicação que actualmente se leccionam e propõe-se uma classificação dos mesmos.
1. Os estudos universitários de comunicação na europa e na américa latina: entre a tradição e a digitalização
A nossa reflexão parte de um facto indiscutível: nos últimos anos incrementou-se notavelmente a oferta de cursos, a quantidade de alunos e o número de instituições dedicadas à formação universitária no sector da comunicação. Apesar das especificidades de cadasociedade, todos os anos aumenta o número de matrículas nos cursos de Comunicação em quase todas as universidades que compõem a Rede ICOD e nos seus respectivos países.
2. A digitalização dos estudos de comunicação: um processo desequilibrado e assimétrico
A entrada dos temas digitais (teóricos, práticos e metodológicos) foi desequilibrado e assimétrico nos planos de estudo das universidades europeias e latino americanas. Algumas instituições foram mais permeáveis que outras à introdução da comunicação digital dentro dos seus planos de formação. O presente capítulo descreve algumas situações concretas e passa revista a alguns dos principais factores que incidem na incorporação de conteúdos digitais identificados nos documentos e debates da Rede ICOD. Para uma maior compreensão dividiram-se estes factores entre exógenos (externos à instituição universitária) e endógenos (internos: que dizem respeito à instituição universitária).
3. Os conteúdos digitais: entre a teoria e a prática Da mesma forma que propomos não continuar a pensar em comunicação "digital" em oposição a um tipo de comunicação "não digital" - tendo em conta que todos os processos comunicativos se encontram a meio por causa do uso destas tecnologias -, também afirmamos que se torna difícil estimar um processo de formação em comunicação que possa ainda evitar a interpelação do digital.
Ao rever os planos de estudo de várias universidades no âmbito europeu e latino-americano constata-se que a temática digital está a atravessar de muitas maneiras estes percursos formativos. Podemos inclusivamente chegar a um mapa aproximado acerca de tipologias gerais quanto à forma que adopta o ensino de conteúdos digitais e, sobretudo, o fomento de competências vinculadas com o desenvolvimento de novos horizontes culturais e o manuseamento de ferramentas de trabalho relacionadas com o digital. Ainda que estes tipos não se manifestam seguramente "quimicamente puros", podem ser um bom ponto de partida para analisar o estado actual dos conteúdos digitais na formação universitária. Também não devemos perder de vista o facto de que novos cenários - quanto ao desenvolvimento digital, a institucionalidade universitária e as solicitações de âmbito profissional e laboral - possam presumivelmente produzir a médio prazo transformações nesta tipificação. Devemos anotar além do mais que mesmo ao agrupá-los se pode verificar um ideal de percurso completo do geral ao particular, do teórico ao prático, nem sempre se encontram reunidos ou consolidados dentro de uma só matriz formativa. Pelo contrário, em muitos casos observam-se desequilíbrios entre o ênfase que oferecem estes conteúdos entre o "saber fazer" e o "saber reconhecer", prova de que em geral não se consegue superar os viciados mecanismos que a nível gnoseológico nos fazem manter uma estrita divisão entre conhecimentos práticos e teóricos. Por outro lado e como já se referiu anteriormente, estes ênfases estariam relacionados além do mais com diversos factores, entre outros as dimensões da instituição universitária, a tradição mais ou menos longa dos estudos de comunicação ou a disponibilidade de tecnologias.
O relatório apresentado pela Universidade Nacional do Rosário dá-nos um índice deste comportamento em universidades argentinas cujos exemplos não diferem muito de outros abordados pela equipa de trabalho:
"Em geral os currículos dos cursos, salvo poucas excepções, estão pensados para o uso instrumental da tecnologia relegando estes estudos a disciplinas do mundo do fazer separado das matérias denominadas "teóricas". Notamos um fosso enorme entre análise crítica da dimensão social e comunicativa e a esfera do fazer com a tecnologia. Esta questão está menos acentuada em cursos mais especializados como os de "Realização e Comunicação Audiovisual", "Desenho Gráfico e Visual" e "Multimédia". Em muitos planos de estudo estão directamente em núcleos ou áreas denominadas instrumentais, e isto repete-se em muitos dos cursos de pós-graduação (tanto especializações como mestrados)".
Em contraste com a realidade descrita, aparece a própria experiência da Universidade Nacional do Rosário, onde se tenta ultrapassar a discussão acerca da oposição teórico/prático. No relatório elaborado pela UNR expressa-se:
"Quando abordamos a problemática da formação, por muito que concordemos que uma sólida formação teórica é consubstancial à universidade, avançamos um pouco mais para definir que o que devemos fortalecer no novo currículo é uma formação epistemológica que permita aos estudantes apropriar-se não só das teorias, mas também, e de maneira fundamental, introduzir-se nos tipos de raciocínio que produziram tais teorias".
Neste mesmo sentido ocorrem outros deslocamentos: de "disciplina a currículo integrado" para se afastar do modelo de desenho curricular "tipo de colecção onde os conteúdos estão claramente delimitados e isolados"; e de "matérias a espaços curriculares", para a articulação de diferentes tipos de saber (saber nocional, saber fazer, saber estético, etc.). De tal modo, esta experiência tenta incorporar o digital ao mesmo tempo "como constructos, modelos, artefactos ou resultado da análise".
Mas vejamos como se desenvolvem em linhas gerais as tipologias mencionadas, alguns dos seus pontos críticos, exemplos de práticas formativas a partir de disciplinas presentes em programas de estudo em vários países:
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